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O que é VPN, como funciona e quando vale a pena usar

Entenda o que é VPN, como ela esconde seu IP, quando vale a pena (e quando não), riscos das VPNs grátis e como testar se a sua está funcionando.

Equipe Qual Meu IP13 min de leitura
Globo terrestre mostrando as Américas em primeiro plano, com um notebook ligado desfocado ao fundo

Foto: Shixart1985, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0, recortada)

VPN (rede virtual privada) é um serviço que cria um túnel criptografado entre o seu celular ou computador e um servidor de outra empresa. Com ela ligada, os sites passam a ver o IP desse servidor no lugar do seu, e o seu provedor de internet deixa de enxergar para quais sites você vai. Ela vale a pena em Wi-Fi público, no trabalho remoto e para ter mais privacidade, mas não deixa ninguém anônimo e não protege contra vírus ou golpes.

A seguir: como ela funciona, para que serve, o que não faz, se é legal no Brasil, como escolher uma e como testar se a sua está funcionando. Para ver agora o que a sua conexão revela sem VPN, abra o Meu IP em outra aba.

O que é uma VPN

VPN é a sigla de Virtual Private Network. O nome vem do uso original: nos anos 1990, empresas precisavam que funcionários fora do escritório acessassem a rede interna pela internet pública sem expor os dados no caminho, e criaram uma “rede privada” virtual, feita de software, por cima da internet comum.

A VPN de consumidor, aquela que você baixa na loja de apps, usa a mesma ideia com outro objetivo: leva todo o seu tráfego até um servidor do provedor de VPN, e só dali ele segue para a internet. Para os sites, quem está acessando é esse servidor.

Como uma VPN funciona

Quando você conecta, o app da VPN e o servidor combinam chaves de criptografia. A partir daí, cada pacote que sai do seu aparelho é criptografado antes de deixar o dispositivo e só é aberto no servidor da VPN. No caminho, o seu provedor de internet e quem estiver na mesma rede Wi-Fi veem apenas dados embaralhados indo para um único endereço: o do servidor da VPN.

Um detalhe importante que muita propaganda omite: a criptografia da VPN vai do seu aparelho até o servidor dela, e não até o site. Depois que o tráfego sai do servidor da VPN, a proteção do conteúdo depende do próprio site usar HTTPS, como já acontece com a grande maioria. Por isso, a VPN não é “criptografia de ponta a ponta”: ela troca quem enxerga os seus metadados, e o provedor da VPN passa a ocupar o lugar que antes era do seu provedor de internet.

Quem vê o quê, com e sem VPN
Seu provedor de internetSem VPNDomínios consultados no DNS, IPs de destino, horários e volume de dados. O conteúdo de sites HTTPS já é criptografado.Com VPNSó que você está conectado a um servidor de VPN, quando e quanto tráfego passa por ele.
Quem está no mesmo Wi-FiSem VPNOs mesmos metadados, e tudo o que não usar HTTPS.Com VPNApenas tráfego criptografado indo para a VPN.
Os sites que você visitaSem VPNSeu IP real e, a partir dele, sua cidade aproximada e seu provedor.Com VPNO IP do servidor da VPN. Cookies, login e fingerprinting continuam funcionando.
A empresa da VPNSem VPNNada.Com VPNSeu IP real e os destinos que você acessa. Por isso a confiança nela é tudo.

Para entender em detalhes o que a operadora consegue ou não ver sem VPN, e o que a lei permite que ela guarde, veja o que o provedor de internet consegue ver.

Para que serve uma VPN

Proteção em Wi-Fi público

É o uso que mais faz sentido para a maioria das pessoas. Em redes de hotel, aeroporto, rodoviária ou café, você não sabe quem administra o roteador nem quem mais está conectado. A VPN impede que essas pessoas vejam quais sites você acessa e protege qualquer aplicativo que ainda use conexão sem criptografia. Os cuidados completos estão no guia de riscos do Wi-Fi público.

Trabalho remoto

A VPN corporativa, configurada pela equipe de TI, liga o seu computador aos sistemas internos da empresa, que pode registrar o que passa por ela.

Privacidade diante do provedor e da rede local

Com a VPN, o provedor de internet, o dono do Wi-Fi e a rede da escola ou do condomínio deixam de ver os domínios que você acessa. Os sites também deixam de ver o seu IP real, que costuma revelar a cidade aproximada e o nome do provedor. Entenda o que dá para descobrir a partir de um IP em o que alguém pode fazer com seu IP.

Viagens e acesso a serviços de outro país

Quem viaja costuma usar VPN com servidor no Brasil para acessar serviços que só funcionam com IP brasileiro. O caminho inverso, usar um servidor estrangeiro para ver o catálogo de streaming de outro país, pode violar os termos de uso do serviço e levar ao bloqueio do conteúdo ou da conta. Muitas plataformas detectam e bloqueiam IPs de VPN. Em países que bloqueiam redes sociais e sites de notícias, a VPN também é usada para acessar informação, mas ali o próprio uso pode ser restrito por lei.

O que a VPN não faz

  • Não deixa você anônimo. Se você faz login no Google, no Instagram ou no banco, o serviço sabe que é você, com ou sem VPN.
  • Não bloqueia cookies nem fingerprinting. Os sites continuam identificando o seu navegador por outras técnicas, explicadas em cookies e fingerprinting.
  • Não protege contra vírus, phishing ou golpes. Um link falso continua falso dentro do túnel.
  • Não esconde nada da própria empresa de VPN. Ela é o ponto onde o túnel termina e, em tese, pode registrar o que passa por lá.
  • Não substitui o HTTPS. Depois do servidor da VPN, o que protege o conteúdo é a criptografia do site.

Sim. Não há lei brasileira que proíba ou restrinja o uso de VPN por pessoas ou empresas. O que vale é o mesmo de sempre: um ato ilegal continua ilegal se for feito por VPN, e a investigação pode chegar até você por outros caminhos, como pagamentos, contas e o próprio provedor da VPN.

O ponto de atenção são as ordens judiciais. Em 30 de agosto de 2024, a decisão do ministro Alexandre de Moraes que suspendeu o X (antigo Twitter) no Brasil previu multa de R$ 50 mil para quem usasse VPN ou outros meios para continuar acessando a plataforma. A Ordem dos Advogados do Brasil contestou esse trecho no STF por considerar a multa aplicada sem o devido processo legal. O caso mostra que a VPN em si é legal, mas usá-la para contornar um bloqueio determinado pela Justiça pode trazer consequências.

Também vale saber que alguns bancos, sites do governo e serviços de streaming podem pedir verificação adicional ou recusar conexões vindas de IPs de VPN, por segurança ou por contrato. Se algo parar de funcionar, desligar a VPN ou usar a divisão de túnel (recurso que deixa certos apps fora da VPN) costuma resolver.

VPN gratuita ou paga

Manter servidores no mundo todo custa caro. Se você não paga com dinheiro, alguém paga de outro jeito, e muitas vezes é com os seus dados ou com anúncios. Isso não é só teoria: um estudo apresentado na conferência IMC em 2016 analisou 283 apps de VPN para Android. Mais de 38% deles tinham algum indício de malware segundo o VirusTotal, 18% criavam o túnel sem nenhuma criptografia, e cerca de 84% não passavam o tráfego IPv6 pelo túnel, o que pode expor o endereço real.

Há exceções sérias. O Proton VPN, por exemplo, tem um plano gratuito sem limite de dados e sem anúncios, restrito a um dispositivo e a alguns servidores, bancado pelos assinantes do plano pago. Já o Cloudflare WARP é gratuito e criptografa o tráfego, mas a própria Cloudflare explica que ele troca o seu IP por um IP dela que continua representando a sua localização aproximada: ele não foi feito para mudar o país de onde você parece estar.

O que costuma mudar entre planos gratuitos e pagos
Como se sustentaVPN gratuitaAnúncios, venda de dados ou assinantes de um plano pagoVPN pagaAssinatura
Dados e velocidadeVPN gratuitaMuitas limitam o volume ou a velocidadeVPN pagaEm geral sem limite de volume
ServidoresVPN gratuitaPoucas localizações, às vezes lotadasVPN pagaMilhares de servidores em dezenas de países
PrivacidadeVPN gratuitaPolíticas vagas são comuns: leia antesVPN pagaAs melhores publicam auditorias independentes
RecursosVPN gratuitaKill switch e proteção contra vazamentos nem sempre presentesVPN pagaKill switch, divisão de túnel e vários protocolos
ProtocolosVPN gratuitaAlgumas ainda oferecem PPTP, que é antigo e inseguroVPN pagaWireGuard, OpenVPN e IKEv2

Protocolos: WireGuard, OpenVPN e IKEv2

O protocolo define como o túnel é montado e criptografado. A maioria dos apps escolhe sozinho.

WireGuard

É o protocolo moderno e, hoje, o padrão em muitos provedores. Foi incorporado ao kernel do Linux na versão 5.6, lançada em março de 2020, e usa criptografia atual como ChaCha20, Poly1305 e Curve25519. O código foi projetado para ser pequeno e fácil de auditar, e costuma ser o mais rápido, principalmente no celular. Algumas empresas usam variantes próprias dele, e já há provedores que oferecem troca de chaves resistente a computadores quânticos sobre o WireGuard.

OpenVPN

É o veterano de código aberto, auditado e compatível com quase tudo. O transporte padrão recomendado é o UDP. A opção TCP (geralmente na porta 443) serve para redes que bloqueiam VPN, mas é mais lenta: colocar TCP dentro de TCP provoca o chamado TCP meltdown, quando as retransmissões das duas camadas se atrapalham. TCP não é mais seguro, só passa por mais firewalls.

IKEv2/IPsec

É nativo no Windows, no macOS, no iPhone e no Android, e lida bem com a troca de rede, por exemplo quando o celular sai do Wi-Fi e vai para o 4G ou 5G. Por isso aparece muito em VPNs corporativas e em apps de celular.

Na prática: deixe o app escolher ou prefira WireGuard. Use OpenVPN TCP só se a rede bloquear as outras opções. E evite serviços que só oferecem PPTP.

Como escolher uma VPN

  • Política de não registro com auditoria recente. Prometer “no-logs” é fácil. Prefira empresas que publicam auditorias independentes com data e escopo claros.
  • Kill switch. Corta a internet se a VPN cair, para que o tráfego não saia pela conexão normal sem você perceber.
  • Proteção contra vazamentos de DNS, IPv6 e WebRTC. São as falhas mais comuns que revelam o IP real mesmo com a VPN ligada.
  • Protocolos modernos (WireGuard, OpenVPN, IKEv2) e apps para todos os seus aparelhos.
  • Transparência: país sede, quem são os donos, relatório de pedidos de autoridades e apps de código aberto contam pontos.
  • Período de teste ou garantia, para medir a velocidade na sua conexão antes de assinar um plano longo.

Como configurar no celular e no computador

O caminho mais simples é instalar o app oficial do provedor, fazer login e tocar em conectar: o app cria a configuração sozinho. Para conferir o que foi instalado ou configurar uma VPN da empresa, os menus ficam aqui:

  • Android: Configurações > Rede e Internet > VPN. Na engrenagem ao lado da VPN existe a opção VPN sempre ativa e, em muitos aparelhos, a de bloquear conexões sem VPN, que funciona como um kill switch do sistema. Os nomes podem variar conforme o fabricante.
  • iPhone: Ajustes > Geral > VPN e Gerenciamento de Dispositivos. Quando há uma VPN configurada, também aparece um atalho para ligá-la na tela principal dos Ajustes.
  • Windows 11: Configurações > Rede e Internet > VPN, onde dá para adicionar uma conexão ou ver as que os apps criaram.
  • Roteador: alguns modelos aceitam funcionar como cliente VPN e protegem todos os aparelhos da casa de uma vez, incluindo TVs e videogames. O recurso depende do modelo e do firmware.

Como testar se a sua VPN está funcionando

Leva menos de cinco minutos e é a melhor forma de saber se a promessa do app vale na sua conexão:

  1. 1

    Anote o seu IP sem VPN

    Com a VPN desligada, abra o Meu IP e anote o endereço, o provedor e a cidade aproximada.
  2. 2

    Ligue a VPN e compare

    Recarregue a página. O IP e o nome do provedor devem mudar para os da empresa de VPN. Se continuarem iguais, o tráfego do navegador não está passando pelo túnel.
  3. 3

    Confira o país do novo IP

    Cole o novo endereço na geolocalização de IP. O país deve ser o do servidor escolhido. Pequenas diferenças de cidade são normais, porque a geolocalização é sempre aproximada.
  4. 4

    Procure vazamentos

    Rode o teste de vazamento WebRTC e o teste de IPv6. Se o seu IP real ou o seu IPv6 da operadora aparecerem, ative nas configurações do app a proteção contra vazamentos ou o bloqueio de IPv6.
  5. 5

    Teste o kill switch

    Com o kill switch ativado, troque de rede ou desconecte o Wi-Fi por alguns segundos. Enquanto a VPN reconecta, nenhum site deve carregar pela conexão normal.

Se quiser ir além, use o guia como saber se o seu IP vazou, que explica cada tipo de vazamento.

VPN deixa a internet mais lenta?

Um pouco, quase sempre. Os dados fazem um desvio até o servidor da VPN e ainda passam pela criptografia, o que aumenta o ping e pode reduzir a velocidade máxima. O tamanho do efeito depende da distância até o servidor, da lotação dele, do protocolo e do processador do aparelho. Em geral, um servidor mais próximo de você e um protocolo leve como o WireGuard dão os melhores resultados.

Para medir na sua conexão, rode o teste de velocidade e o teste de ping com e sem a VPN. As dicas para um resultado confiável estão em como testar a velocidade da internet. Para jogos online, o aumento de latência costuma pesar mais do que a perda de velocidade.

VPN, proxy, Tor e Retransmissão Privada

Ferramentas que mudam o IP que os sites veem
VPNO que protegeTodo o tráfego do aparelho, com criptografia até o servidor da VPN.LimitaçõesExige confiar na empresa da VPN. Pode reduzir a velocidade.
ProxyO que protegeNormalmente só o navegador ou um app específico.LimitaçõesMuitos não criptografam nada. Proxies gratuitos são arriscados.
TorO que protegeO navegador, passando por três servidores voluntários com criptografia em camadas.LimitaçõesBem mais lento. Muitos sites mostram verificações extras para quem usa Tor.
Retransmissão Privada do iCloudO que protegeA navegação no Safari, com dois retransmissores: um vê seu IP, o outro vê o site.LimitaçõesExige iCloud+, só funciona em aparelhos Apple e não está disponível em todos os países.

Se o seu objetivo é trocar de IP por outros motivos, como um bloqueio temporário em um jogo, existem caminhos mais simples, explicados em como mudar seu IP. E para uma visão geral de todas as formas de proteção, veja como proteger seu IP.

Em resumo

A VPN vale a pena para proteger o tráfego em redes que você não controla e esconder do provedor e dos sites o seu IP real. Ela não deixa ninguém invisível e transfere a confiança para a empresa da VPN: escolha um serviço transparente, ative o kill switch e repita o teste acima sempre que trocar de app ou de aparelho.

Ferramentas usadas neste guia

Perguntas frequentes

Usar VPN é crime no Brasil?
Não. Nenhuma lei brasileira proíbe o uso de VPN, e empresas e pessoas usam esse recurso todos os dias. O que continua ilegal é o que se faz com ela: cometer um crime com VPN segue sendo crime, e usar VPN para descumprir uma ordem judicial pode gerar punição, como ocorreu em 2024, quando a decisão que suspendeu o X previu multa para quem usasse VPN para acessar a rede.
VPN gratuita é segura?
Depende de quem oferece. Um estudo acadêmico de 2016 com 283 apps de VPN para Android encontrou indícios de malware em mais de 38% deles e 18% sem nenhuma criptografia. Há exceções sérias, como planos gratuitos de empresas que vivem das assinaturas pagas, mas desconfie de qualquer VPN grátis que não explica como se sustenta.
A VPN esconde o que eu faço do Google e das redes sociais?
Esconde apenas o seu IP real. Se você estiver logado na conta Google, Instagram ou qualquer outro serviço, ele continua sabendo que é você, porque a identificação acontece pelo login e pelos cookies, não pelo IP.
VPN protege contra vírus e golpes?
Não. A VPN protege o caminho dos dados entre o seu aparelho e o servidor dela. Ela não impede que você baixe um arquivo infectado, clique em um link falso ou digite a senha em uma página de phishing. Para isso valem antivírus, atualizações e atenção aos links.
Preciso deixar a VPN ligada o tempo todo?
Não é obrigatório. Ela faz mais diferença em redes que você não controla, como Wi-Fi de hotel, aeroporto ou café. Em casa, alguns bancos, serviços do governo e plataformas de streaming podem pedir verificação extra ou bloquear IPs de VPN, então muita gente liga a VPN só quando precisa ou usa a divisão de túnel para excluir esses apps.

Fontes e referências

  1. Ikram et al. (IMC 2016): An Analysis of the Privacy and Security Risks of Android VPN Permission-enabled Apps
  2. WireGuard: site oficial e criptografia usada
  3. Kernel Newbies: Linux 5.6, lançado em março de 2020 com o WireGuard
  4. OpenVPN: o que é TCP meltdown
  5. Cloudflare: perguntas frequentes do WARP
  6. Proton VPN: o que inclui o plano gratuito
  7. Apple: sobre a Retransmissão Privada do iCloud
  8. Google: conectar a uma VPN no Android
  9. Mullvad: túneis resistentes a computação quântica com WireGuard
  10. OAB: pedido ao STF sobre a multa a quem usasse VPN para acessar o X (30/08/2024)
  11. CNN Brasil: Moraes proíbe uso de VPN para acessar X sob pena de multa de R$ 50 mil

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