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Vazamento de IP: como testar WebRTC, DNS e IPv6 na VPN

Veja como testar se sua VPN vaza seu IP por IPv6, WebRTC ou DNS, como interpretar o resultado e como corrigir cada tipo de vazamento em poucos minutos.

Equipe Qual Meu IP10 min de leitura
Cadeado aberto apoiado sobre um notebook, simbolizando dados e conexão expostos a invasores

Foto: Yuri Samoilov, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0, recortada)

Para saber se a sua VPN vaza o seu IP, anote o IPv4 e o IPv6 com a VPN desligada na página Meu IP detalhado, ligue a VPN e faça três testes: o IP público (que deve ser o da VPN nos dois protocolos), o teste de vazamento WebRTC e um teste de vazamento de DNS. Se qualquer um deles mostrar um endereço que você anotou, ou servidores DNS da sua operadora, há vazamento, e cada tipo tem uma correção diferente.

Sem VPN, não existe vazamento: todo site que você visita vê o seu IP, porque é assim que a internet entrega as respostas. E esse IP revela o provedor e uma região aproximada, não o seu nome ou endereço. O guia abaixo mostra como testar, como ler o resultado e como corrigir cada caso.

O que é, de fato, um vazamento de IP

Fala-se em vazamento quando você usa uma VPN, um proxy ou o Tor para que os sites vejam outro endereço, mas parte do tráfego escapa por fora e revela o IP real da sua conexão, ou quando as consultas DNS continuam indo para a sua operadora. O problema não é um site ver um IP, e sim ver o IP que você queria esconder.

Vale calibrar o risco. Com um IP, alguém descobre o provedor e uma localização aproximada, às vezes errada. Só a operadora sabe qual cliente usava aquele IP em determinado horário: pelo Marco Civil da Internet, ela guarda esses registros por 1 ano (art. 13) e só pode entregá-los por ordem judicial (arts. 10 e 22). O guia o que alguém pode fazer com seu IP separa os riscos reais dos exagerados.

Como testar sua VPN em 5 minutos

  1. 1

    Anote seus endereços reais

    Com a VPN desligada, abra a página Meu IP ou o teste de IPv6 e anote o IPv4 e, se houver, o IPv6.
  2. 2

    Ligue a VPN e confira o IP público

    Recarregue a página. O IPv4 deve ser outro, de um provedor de data center. O IPv6 deve ser da VPN ou não aparecer. Se o seu IPv6 anotado continuar ali, a VPN não está cobrindo o IPv6.
  3. 3

    Rode o teste de WebRTC

    O teste de vazamento WebRTC mostra os endereços que o navegador revela para um site. Nenhum deles pode ser um dos endereços que você anotou.
  4. 4

    Faça um teste de vazamento de DNS

    Serviços como o dnsleaktest.com e o ipleak.net listam quais servidores resolveram suas consultas. Com a VPN ligada, devem aparecer os servidores da VPN ou do DNS que ela usa, e não os da sua operadora.
  5. 5

    Teste a queda da VPN

    Com o kill switch ligado, desconecte a VPN pelo próprio app ou troque de rede Wi-Fi. A internet deve parar até a VPN voltar. Se ela continuar funcionando com o IP real, o kill switch não está ativo.

Os tipos de vazamento

Vazamento de IPv6

Hoje é o vazamento mais comum. Segundo as estatísticas do Google, 56,5% dos acessos vindos do Brasil usavam IPv6 em outubro de 2026. Se a VPN só cria o túnel para IPv4 e não bloqueia o IPv6, o navegador acessa por IPv6, direto pela sua operadora, todos os sites que têm IPv6, e eles veem o seu endereço real. A correção é usar uma VPN que leve o IPv6 pelo túnel ou que bloqueie o IPv6 enquanto está conectada. As diferenças entre os protocolos estão em IPv4 vs IPv6.

Vazamento por WebRTC

O WebRTC é a tecnologia que permite chamadas de voz e vídeo direto no navegador. Para conectar uma chamada, ele reúne os possíveis caminhos até o seu aparelho (os candidatos ICE), inclusive o endereço público visto por um servidor externo (STUN). Os navegadores atuais já não revelam o IP local para sites sem permissão de câmera ou microfone: no lugar dele aparece um nome aleatório terminado em .local, técnica descrita pela IETF.

Com uma VPN que cobre todo o aparelho, o pedido ao servidor STUN também passa pelo túnel e revela só o IP da VPN. O vazamento aparece em situações específicas:

  • VPN como extensão do navegador: muitas extensões são proxies que levam só o tráfego web comum. O WebRTC usa UDP e pode sair por fora.
  • Túnel dividido (split tunneling): se o navegador ficou na lista de apps que não passam pela VPN.
  • IPv6 fora do túnel: o STUN responde pelo IPv6 real.
  • VPN caída sem kill switch: o navegador continua funcionando, agora pela conexão normal.

No resultado do teste, endereços terminados em .local são normais. O que importa são os IPs públicos: eles devem ser os mesmos que a página Meu IP mostra com a VPN ligada.

Vazamento de DNS

Toda vez que você abre um site, o aparelho pergunta a um servidor DNS qual é o IP daquele nome. Com a VPN ligada, essas perguntas devem ir pelo túnel para o DNS da VPN. Há vazamento de DNS quando elas continuam indo para o DNS da operadora: o IP que os sites veem é o da VPN, mas a operadora fica sabendo quais domínios você consulta.

As causas mais comuns são VPNs que não forçam o próprio DNS, DNS IPv6 da operadora que continua configurado, e o Windows, que pode enviar consultas por mais de uma interface de rede ao mesmo tempo. Configurar manualmente 1.1.1.1 ou 8.8.8.8 não resolve: com a VPN ligada, um DNS fora do túnel continua sendo vazamento. A correção é ativar a proteção de DNS da própria VPN, o kill switch e o tratamento de IPv6. Como DNS criptografado funciona e como configurá-lo fora da VPN está no guia como mudar o DNS.

Quando a VPN cai ou ainda não conectou

Se a VPN cai por alguns segundos (troca de Wi-Fi para dados móveis, por exemplo) ou demora a conectar quando o aparelho liga, os apps usam a conexão normal nesse intervalo. Por isso o kill switch é essencial. No Android, além do kill switch do app, ative nas configurações de VPN do sistema as opções VPN sempre ativa e Bloquear conexões sem VPN. No iPhone e no computador, procure a opção equivalente no app da VPN; os nomes variam.

Redes Wi-Fi hostis (TunnelVision)

Em 2024 foi divulgada a falha conhecida como TunnelVision (CVE-2024-3661): um atacante na mesma rede local pode usar uma opção do DHCP (a 121, de rotas estáticas) para fazer parte do tráfego sair pela interface física, fora da VPN. É um risco de redes que você não controla, como Wi-Fi público. VPNs que bloqueiam por firewall tudo o que não passa pelo túnel reduzem o problema; em locais públicos, usar os dados móveis do celular também é uma alternativa. Mais cuidados estão em riscos do Wi-Fi público.

Como corrigir cada vazamento

Sinal no teste e correção
IPv6Como aparece no testeSeu IPv6 real aparece com a VPN ligadaComo corrigirVPN com suporte a IPv6 ou com bloqueio de IPv6
WebRTCComo aparece no testeO teste de WebRTC mostra seu IP público realComo corrigirUsar o app da VPN em vez de extensão, tirar o navegador do túnel dividido, ajustar o WebRTC
DNSComo aparece no testeServidores da sua operadora no teste de DNSComo corrigirProteção de DNS da VPN, kill switch e IPv6 tratado
Queda da VPNComo aparece no testeInternet continua funcionando sem a VPNComo corrigirKill switch; no Android, VPN sempre ativa e bloquear conexões sem VPN

Para restringir o WebRTC sem perder as chamadas no navegador:

  • Firefox: em about:config, defina media.peerconnection.ice.default_address_only e media.peerconnection.ice.no_host como true. Desligar media.peerconnection.enabled também funciona, mas desativa todas as chamadas.
  • Brave: em Configurações → Privacidade e segurança, ajuste a política de tratamento de IP do WebRTC. Com a proteção contra impressão digital ativada, o Brave já passa sozinho para o modo que impede o WebRTC de usar UDP fora do proxy.
  • Chrome e Edge: não há opção nas configurações comuns. A política corporativa WebRtcIPHandling e as extensões das próprias VPNs limitam o WebRTC à interface pública ou ao proxy.

Outras formas comuns de um IP ficar visível

Alguns caminhos mostram o seu IP por design, com ou sem falha de VPN. Em torrents, todos os participantes de um compartilhamento veem os IPs uns dos outros. Algumas chamadas e jogos conectam os participantes diretamente, e cada um enxerga o IP do outro. E links desconhecidos, inclusive encurtados, levam a sites que registram o IP de quem clica, como qualquer site. Nada disso permite descobrir quem você é, mas é bom saber, especialmente se você usa VPN justamente para não expor o IP nessas situações.

E quando o vazamento é de dados?

Muita gente procura “IP vazado” depois de saber que um serviço sofreu um vazamento de dados. Nesses casos, o IP costuma aparecer junto com e-mail, senha e outros dados cadastrais, e é o menos preocupante deles: muda com o tempo e mostra só provedor e região. O que fazer:

  1. Verifique o e-mail no Have I Been Pwned, que também avisa sobre vazamentos futuros, e confira se a sua senha já apareceu em vazamentos com o verificador de senha vazada, que não envia a senha.
  2. Troque a senha do serviço afetado e de qualquer outro onde você usava a mesma. O gerador de senhas cria senhas fortes no próprio navegador.
  3. Ative chaves de acesso (passkeys) onde houver ou a verificação em duas etapas, de preferência por aplicativo autenticador em vez de SMS.
  4. Se CPF e dados bancários vazaram, consulte o Registrato, do Banco Central, para conferir contas, empréstimos e chaves Pix no seu nome.

Pela LGPD (art. 48), a empresa que sofreu o incidente deve comunicar a ANPD e os titulares quando houver risco ou dano relevante, e a Resolução CD/ANPD nº 15/2024 fixa o prazo de três dias úteis. O passo a passo completo está em minha senha vazou: o que fazer, e os seus direitos em LGPD e seus dados.

Para entender melhor como as VPNs funcionam e onde elas não protegem, leia o que é VPN. Se o objetivo é privacidade de forma mais ampla, veja também navegação anônima e como mudar o IP.

Ferramentas usadas neste guia

Perguntas frequentes

Como saber se minha VPN está vazando meu IP?
Com a VPN desligada, anote seu IPv4 e seu IPv6 na página Meu IP. Ligue a VPN e repita: os dois endereços devem mudar (ou o IPv6 deve sumir). Depois rode o teste de WebRTC e um teste de vazamento de DNS. Se algum deles mostrar um endereço que você anotou ou servidores DNS da sua operadora, há vazamento.
O que é vazamento de WebRTC?
O WebRTC é a tecnologia de chamadas de voz e vídeo do navegador. Para conectar as chamadas, ele descobre os endereços da conexão. Se o tráfego do navegador não estiver todo dentro da VPN, como acontece com extensões de proxy, túnel dividido ou IPv6 fora do túnel, um site pode ver o seu IP real por esse caminho.
Preciso desativar o WebRTC?
Em geral, não. Desativar por completo quebra chamadas no navegador, como Google Meet, Discord e WhatsApp Web. É melhor restringir: no Firefox, ajustar as preferências de ICE; no Brave, mudar a política de tratamento de IP do WebRTC; no Chrome, usar a extensão da própria VPN ou a política corporativa WebRtcIPHandling.
Alguém consegue me achar pelo meu IP?
Não diretamente. O IP mostra o provedor e uma localização aproximada, normalmente a cidade. Só a operadora sabe qual cliente usava aquele IP em determinado horário, e pelo Marco Civil da Internet ela só entrega essa informação mediante ordem judicial.
Meu IP apareceu em um vazamento de dados. E agora?
O IP em si é o dado menos preocupante: ele muda e mostra apenas provedor e região. O que importa é o que vazou junto, como e-mail, senha e CPF. Troque a senha do serviço afetado e de qualquer outro onde você usava a mesma, ative a verificação em duas etapas ou chaves de acesso e fique atento a mensagens de golpe que citem seus dados.

Fontes e referências

  1. Google: Estatísticas de adoção do IPv6 por país
  2. RFC 8828: WebRTC IP Address Handling Requirements
  3. IETF: Using Multicast DNS to protect privacy when exposing ICE candidates
  4. Chrome Enterprise: política WebRtcIPHandling
  5. Brave: configurações personalizadas de WebRTC
  6. Firefox: preferências padrão de WebRTC (media.peerconnection.ice)
  7. CVE-2024-3661 (TunnelVision)
  8. Lei 12.965/2014 (Marco Civil da Internet), arts. 10, 13 e 22
  9. Lei 13.709/2018 (LGPD), art. 48
  10. ANPD: Resolução CD/ANPD nº 15/2024 (Regulamento de Comunicação de Incidente de Segurança)
  11. Have I Been Pwned: perguntas frequentes
  12. Banco Central: Registrato

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