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IP público vs IP privado: entenda a diferença
Entenda a diferença entre IP público e IP privado, as faixas reservadas (192.168, 10, 172.16), o NAT e o CGNAT e como ver cada um no PC e no celular.
Entenda o que é CGNAT, por que as operadoras usam, como saber se seu IP é compartilhado (faixa 100.64.0.0/10) e como sair dele para abrir portas e ver câmeras.

Foto: Raysonho @ Open Grid Scheduler / Grid Engine, via Wikimedia Commons (CC0 1.0, recortada)
CGNAT (Carrier-Grade NAT, ou NAT de operadora) é a técnica em que o provedor coloca vários clientes atrás de um mesmo endereço IPv4 público. Você navega, assiste a vídeos e joga normalmente, mas a sua conexão deixa de receber conexões vindas de fora: abrir portas no roteador não funciona, e câmeras, DVRs e servidores caseiros deixam de ser acessíveis diretamente pelo IPv4.
Para saber se é o seu caso, compare o IP que aparece na WAN do roteador com o seu IP público. Se o da WAN estiver entre 100.64.0.0 e 100.127.255.255, você está atrás de CGNAT. O teste de CGNAT faz essa comparação em segundos.
100.64.0.0/10
Faixa reservada para a rede interna do CGNAT, com 4.194.304 endereços
Fonte: RFC 6598 (IETF, 2012)
19/08/2020
Data em que o LACNIC, registro que atende o Brasil, reservou o último bloco IPv4 do seu estoque
Fonte: LACNIC
59%
Usuários no Brasil com IPv6 funcionando, a saída natural do CGNAT
Fonte: APNIC Labs, outubro de 2026
Em uma conexão comum, o roteador da sua casa já faz NAT (tradução de endereços): celular, notebook e TV usam endereços privados, como 192.168.0.10, e saem para a internet com um único IP público, o da sua linha (veja IP público vs IP privado).
Com CGNAT, existe uma segunda tradução, feita por um equipamento dentro da rede do provedor. O seu roteador recebe um endereço interno da operadora, e é o equipamento de CGNAT que o troca por um IPv4 público dividido com outros clientes; do lado de fora, o que separa um cliente do outro são as portas de cada conexão. Por isso o arranjo também é chamado de NAT444: são três camadas de endereços IPv4, a da casa, a da operadora e a da internet.
O caminho de um acesso atrás de CGNAT
Seu aparelho faz o pedido
Primeiro NAT, no seu roteador
Segundo NAT, na operadora
A resposta volta pelo mesmo caminho
O ponto crucial está no caminho inverso. Uma conexão que nasce lá fora, como alguém abrindo a sua câmera, chega ao IP compartilhado sem entrada correspondente na tabela do CGNAT, e o equipamento descarta o pacote. Como ele é da operadora, nenhuma configuração no seu roteador muda isso.
| Característica | NAT do seu roteador | CGNAT |
|---|---|---|
| Onde fica | NAT do seu roteadorNa sua casa | CGNATNa rede da operadora |
| Quem controla | NAT do seu roteadorVocê | CGNATO provedor |
| IP que o roteador recebe na WAN | NAT do seu roteadorIPv4 público, só da sua linha | CGNATEndereço interno, em geral da faixa 100.64.0.0/10 |
| IP público | NAT do seu roteadorExclusivo da sua conexão | CGNATDividido com outros clientes |
| Redirecionamento de portas | NAT do seu roteadorFunciona | CGNATNão tem efeito |
O IPv4 tem cerca de 4,3 bilhões de endereços, muito menos do que os aparelhos conectados hoje. Na América Latina, o LACNIC anunciou em 19 de agosto de 2020 que tinha reservado o último bloco IPv4 do seu estoque; desde então, novos endereços vêm de blocos devolvidos, distribuídos por fila de espera, ou de transferências entre empresas. Colocar várias linhas atrás de cada IPv4 público é a forma de as operadoras continuarem crescendo enquanto o IPv6 não substitui o protocolo antigo. Nas redes móveis, o compartilhamento é praticamente a regra; na banda larga fixa, depende da operadora, da cidade, da tecnologia e até da data de instalação.
Para numerar a rede entre os roteadores dos clientes e o equipamento de CGNAT, a IETF reservou em abril de 2012, pela RFC 6598, a faixa 100.64.0.0/10, chamada de espaço de endereços compartilhado. Ela vai de 100.64.0.0 a 100.127.255.255, soma 4.194.304 endereços e não pode circular fora da rede de cada provedor. Ter uma faixa própria evita conflito com as redes privadas das casas (192.168.x.x, 10.x.x.x e 172.16.x.x a 172.31.x.x), que poderiam se repetir dos dois lados do roteador.
Há provedores que usam endereços privados, quase sempre 10.x.x.x, no lugar da 100.64. E na variação chamada DS-Lite, em que o IPv4 viaja num túnel IPv6 até a operadora, o roteador costuma mostrar um endereço 192.0.0.x (RFC 6333 e RFC 7335). O efeito prático é o mesmo: o IPv4 público não é só seu.
O teste confiável compara o IP público, que os sites enxergam, com o IP que o roteador recebeu do provedor na WAN.
Veja o seu IP público
Encontre o IP da WAN
Compare os dois
| O que você vê | O que indica | Confiança |
|---|---|---|
| WAN entre 100.64.x.x e 100.127.x.x | O que indicaCGNAT | ConfiançaAlta |
| WAN igual ao IP público | O que indicaIP público próprio; portas podem ser abertas | ConfiançaAlta |
| WAN em 192.168.x.x ou 172.16.x.x a 172.31.x.x | O que indicaNAT duplo: a ONT ou o modem da operadora também está roteando | ConfiançaAlta; confira a WAN da ONT |
| WAN em 10.x.x.x | O que indicaNAT duplo ou CGNAT com endereço privado | ConfiançaMédia; confira a WAN da ONT |
| WAN em 192.0.0.x | O que indicaDS-Lite: IPv4 compartilhado por túnel IPv6 | ConfiançaAlta |
| Saltos em 100.64.x.x no traceroute | O que indicaIndício de CGNAT | ConfiançaMédia |
Sem acesso ao roteador, rode tracert -d -h 5 8.8.8.8 no Prompt de Comando do Windows (no macOS ou no Linux, traceroute -n -m 5 8.8.8.8). Um salto em 100.64.x.x a 100.127.x.x logo depois do seu roteador sugere CGNAT, mas é só indício: alguns provedores usam essas faixas em equipamentos internos mesmo quando o cliente tem IP público. Outros comandos estão em comandos de rede do CMD.
Quando a WAN do seu roteador mostra 192.168.x.x, o mais comum é que a ONT ou o modem da operadora esteja roteando e o seu roteador fique atrás dele. Isso tem solução dentro de casa: colocar a ONT em modo bridge, para o seu roteador fazer a conexão PPPoE, ou apontar a DMZ da ONT para o seu roteador. Depois, repita o teste; se a WAN mostrar 100.64.x.x, você tem os dois problemas ao mesmo tempo.
Nenhuma das grandes operadoras publica uma política clara sobre CGNAT na banda larga residencial, e os relatos de clientes variam conforme a cidade, a tecnologia e a época da instalação; o jeito seguro de saber é testar a sua linha. O que elas documentam, nas páginas consultadas em outubro de 2026, é a oferta de IP fixo e os canais de atendimento:
| Operadora | O que está documentado | Onde pedir |
|---|---|---|
| Vivo Fibra | O que está documentadoAssinatura IP Fixo Digital para clientes com CPF: IPv4 fixo e, se houver viabilidade, prefixo IPv6 /56 fixo | Onde pedirApp Vivo, aba Assinaturas |
| Claro | O que está documentadoIP fixo nos planos de fibra da Claro Empresas; sem oferta residencial publicada | Onde pedir10621 ou app Minha Claro |
| TIM Ultrafibra | O que está documentadoResidencial com IP dinâmico; IP fixo nos planos TIM Ultrafibra Empresas; liberação de portas pela central | Onde pedir10341 |
| Nio (antiga Oi Fibra) | O que está documentadoSem oferta residencial de IP fixo publicada | Onde pedirApp Nio ou 0800 001 1000 |
| Starlink | O que está documentadoCGNAT por padrão no IPv4 e IPv6 nativo; IP público só em planos específicos | Onde pedirApp Starlink |
| Provedores regionais | O que está documentadoA política varia muito de um provedor para outro | Onde pedirSuporte do provedor |
Modelos de roteador e caminhos de menu estão nas páginas de Vivo Fibra, Claro, TIM Ultrafibra e Nio, no guia de operadoras, e o caso da internet via satélite está em IP na Starlink.
| Uso | Atrás de CGNAT | Por quê |
|---|---|---|
| Navegar, streaming, redes sociais, videochamadas | Atrás de CGNATFunciona normalmente | Por quêSão conexões que saem da sua casa |
| Jogos online | Atrás de CGNATFunciona, com limitações | Por quêConsoles indicam NAT Moderado ou Estrito (Xbox) ou Tipo 3 (PlayStation), o que atrapalha o chat de voz e hospedar partidas |
| Hospedar servidor (Minecraft, site, NAS) | Atrás de CGNATNão funciona pelo IPv4 | Por quêNinguém de fora consegue iniciar uma conexão com você |
| Câmeras e DVR por IP e porta | Atrás de CGNATNão funciona | Por quêO redirecionamento de portas do roteador não tem efeito |
| Câmeras pelo app do fabricante (nuvem ou P2P) | Atrás de CGNATFunciona | Por quêO próprio aparelho abre a conexão de saída |
| Área de trabalho remota (RDP, VNC) direta | Atrás de CGNATNão funciona | Por quêMesmo motivo dos servidores |
| VPN em malha e túneis | Atrás de CGNATFunciona | Por quêUsam conexões de saída |
| Torrent e outros P2P | Atrás de CGNATFunciona, com menos conexões | Por quêVocê só alcança os pares que aceitam conexões de entrada |
Há dois efeitos menos óbvios. O primeiro é o limite de portas: a RFC 6888, que lista os requisitos dos equipamentos de CGNAT, exige que eles permitam limitar quantas portas cada cliente usa, e programas que abrem muitas conexões ao mesmo tempo podem esbarrar nesse teto. A Starlink, por exemplo, avisa que o seu CGNAT tem limite de sessões simultâneas. O segundo é a reputação compartilhada: se outro cliente do mesmo IPv4 público faz algo suspeito, sites podem exibir CAPTCHAs ou bloquear o endereço para todos. A consulta de blacklist mostra se o seu IP aparece em listas de bloqueio.
A velocidade, em geral, não muda; lentidão e ping alto costumam ter outras causas. Para o NAT dos consoles, leia NAT estrito: como resolver.
Não. O Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) obriga o provedor de conexão a guardar os registros de conexão por um ano (art. 13), e sites e aplicativos operados por empresas guardam os registros de acesso por seis meses (art. 15). Com IP compartilhado, identificar alguém exige também a porta de origem e o horário exato. Por isso a RFC 6302 recomenda aos servidores registrar, além do IP, a porta de origem e um horário preciso, de preferência em UTC, e a RFC 7422 descreve um modelo em que cada cliente recebe uma faixa fixa de portas, o que facilita cruzar os registros.
Pelo Marco Civil, esses registros só são entregues com ordem judicial; autoridades competentes podem requisitar sem ela apenas dados cadastrais, como nome e endereço. Veja também o que o provedor sabe sobre o que você acessa.
Como o CGNAT fica na operadora, não há opção no roteador para desligá-lo. As saídas, da mais simples para a mais trabalhosa:
No atendimento, peça com essas palavras para retirar a sua linha do CGNAT e receber um IPv4 público (alguns atendentes dizem IP válido ou IP real). Explique o motivo, como câmeras ou servidor de jogo, e anote o protocolo. Há operadoras que fazem a troca sem custo, outras que cobram à parte e outras que só oferecem IP público em planos empresariais ou com IP fixo. Depois da mudança, a WAN do roteador passa a mostrar o mesmo número do Meu IP.
Um IP público ainda pode mudar a cada reconexão. Para servidores ou sistemas que só aceitam IPs cadastrados, o IP fixo resolve; para câmeras e jogos, IP público com DNS dinâmico costuma bastar. Compare em IP fixo ou IP dinâmico.
No IPv6 não há escassez de endereços, e cada aparelho recebe um endereço global, sem CGNAT. Segundo o APNIC Labs, cerca de 59% dos usuários no Brasil tinham IPv6 funcionando em outubro de 2026, e nos principais sistemas autônomos de Vivo (AS26599), Claro (AS28573) e TIM (AS26615) a taxa passava de 80%. Confira a sua conexão no teste de IPv6 e, se o IPv6 não aparecer, veja como ativar o IPv6.
Três cuidados: a rede de onde você vai acessar também precisa ter IPv6 (teste no celular, fora do Wi-Fi); os roteadores costumam bloquear conexões IPv6 que chegam sem terem sido pedidas, como recomenda a RFC 6092, então libere só a porta necessária, para o aparelho necessário, sem desligar o firewall; e o prefixo IPv6 residencial pode mudar, o que um DNS dinâmico com registro AAAA resolve.
Se nada disso estiver disponível, inverta o sentido da conexão: o seu aparelho se conecta a um serviço intermediário e mantém o canal aberto.
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